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Quando a vida volta a respirar

Aos 80 anos, Dona Cíntia reencontra a leveza após tratar a depressão e revela como a prevenção em saúde mental pode transformar histórias em Fortaleza

A depressão não chegou fazendo barulho.
Chegou como o silêncio.

Na casa de Cíntia Garcia, 80 anos, aposentada, o tempo parecia passar mais devagar. O relógio continuava funcionando, mas os dias haviam perdido o ritmo. O que antes era rotina, conversar, sair, planejar, virou esforço. O mundo continuava acontecendo lá fora, mas dentro dela algo parecia suspenso.

“Era como se a vida tivesse ficado distante de mim”, lembra.

O isolamento prolongado por cuidados com a saúde contribuiu para que Dona Cíntia enfrentasse um período de depressão. Não foi uma mudança repentina, mas um processo silencioso, como quando a maré sobe sem que se perceba.

Vieram o desânimo, o cansaço constante, a falta de vontade de fazer coisas simples. E, junto com eles, a percepção de que precisava de ajuda.
Foi quando começou o acompanhamento com psicólogo e psiquiatra, um tratamento que durou três anos e que se tornou uma travessia de volta para si mesma.

Hoje, Dona Cíntia vive outro tempo.

Dona Cíntia fazendo exercício em casa mesmo.

Faz atividade física com personal trainer, cuida da alimentação, participa de encontros com amigas, passeia com a família e mantém uma rotina ativa dentro e fora de casa. Pequenos gestos que, para quem já atravessou a escuridão emocional, são sinais de reconstrução.

“Eu voltei a sentir alegria nas coisas simples”, diz.

A dor invisível de uma sociedade acelerada

A história de Dona Cíntia não é isolada. Ela faz parte de um cenário cada vez mais presente no cotidiano das cidades.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, ansiedade e depressão cresceram cerca de 25% após a pandemia, e mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais no mundo.

No Brasil, os reflexos aparecem também no trabalho: mais de 470 mil afastamentos por transtornos mentais foram registrados em 2024, o maior número da última década.

Especialistas têm chamado esse fenômeno de uma crise silenciosa, uma espécie de epidemia emocional. Para a psicóloga Anna Tharita Aires Falcão, o aumento dos casos está ligado à forma como a vida contemporânea se organiza.

“A pandemia deixou marcas importantes, mas o adoecimento emocional também está relacionado ao ritmo acelerado da vida nas cidades, às responsabilidades familiares, às pressões profissionais e ao excesso de estímulos. Muitas pessoas vivem em estado permanente de tensão.”

Ela explica que o sofrimento psíquico raramente começa de forma dramática. “Geralmente aparece em sinais pequenos: insônia, irritação constante, cansaço emocional, perda de interesse pelas coisas que antes davam prazer. Quando não cuidamos, esses sinais se aprofundam.”

Prevenção: cuidar antes do colapso

O tratamento de Dona Cíntia não foi apenas clínico, foi também preventivo. Parte do cuidado aconteceu por meio de iniciativas de Medicina Preventiva da Unimed Fortaleza, que integram acompanhamento multiprofissional e incentivo a hábitos saudáveis.

A cooperativa tem ampliado ações voltadas à saúde mental, como oficinas terapêuticas, acompanhamento psicológico e psiquiátrico, grupos de apoio emocional e programas de autocuidado, incluindo o Programa Viver Bem e campanhas de conscientização como o Janeiro Branco.

O objetivo é simples, e poderoso: cuidar antes que o sofrimento se torne incapacitante.

“A prevenção em saúde mental funciona como um alicerce emocional. Ela fortalece a pessoa para lidar com as pressões da vida antes que elas se transformem em doença”, explica Anna Tharita.

Segundo a psicóloga, o cuidado emocional precisa ser entendido como parte da saúde integral.

“Assim como fazemos exames de rotina, a mente também precisa de acompanhamento, escuta e atenção.”

Pequenos cuidados que sustentam a mente

Entre as práticas recomendadas pelos especialistas estão atitudes que parecem simples, mas têm impacto profundo: manter uma rotina organizada, dormir bem, movimentar o corpo, preservar vínculos afetivos e criar pausas no cotidiano.

“A mente não foi feita para funcionar em alerta permanente. Ela precisa de descanso, de silêncio e de relações humanas verdadeiras”, diz Anna Tharita.

Ela reforça que saúde mental não significa ausência de sofrimento, mas capacidade de atravessá-lo com apoio e equilíbrio.

Quando pedir ajuda é o primeiro passo

Se o sofrimento emocional persiste, buscar ajuda profissional é essencial.

Psicólogos e psiquiatras podem oferecer diagnóstico, acolhimento e tratamento adequado. Em Fortaleza, além da rede privada, existem serviços públicos e comunitários disponíveis para atendimento psicológico e psiquiátrico.

Para Anna Tharita, ainda existe um obstáculo importante: o estigma. “Muitas pessoas demoram a procurar ajuda porque acreditam que precisam resolver tudo sozinhas. Mas pedir apoio é um gesto de maturidade emocional.”

A vida depois do cuidado

Dona Cíntia e sua filha, Ludmila Amaral, passeando em uma tarde na capital.

Dona Cíntia costuma dizer que reaprendeu a viver devagar.

Não no sentido de parar, mas de perceber.
Perceber o próprio corpo, o humor, o tempo das coisas. Perceber que a saúde mental não é um destino, é um caminho que se constrói todos os dias.

A depressão não desapareceu como um milagre. Ela foi tratada com ciência, escuta e continuidade.
E a vida voltou, pouco a pouco, como a luz entrando por uma fresta.

“Hoje eu me sinto bem. Eu me sinto viva”, diz.

Farol para quem ainda está no escuro

A história de Dona Cíntia deixa uma lição simples e profunda: cuidar da mente é um ato de prevenção, coragem e amor próprio. Porque a saúde mental não é apenas sobreviver aos dias difíceis, é voltar a sentir o mundo caber dentro do peito. E sempre existe um caminho de volta.

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