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Bia Fiúza e a delicada revolução de olhar para o outro

Conselheira de Impacto e uma das fundadoras do Instituto de Música Jacques Klein, ela aprendeu cedo que algumas das transformações mais importantes do mundo começam quando alguém decide não ser indiferente.


“Nem todo mundo teve as oportunidades que eu tive.”.

Essa é uma consciência que acompanha Bia Fiúza desde muito cedo. Filha de uma professora, ela cresceu entendendo que a vida não distribui oportunidades de forma igual. Enquanto algumas crianças encontram portas abertas, outras precisam lutar apenas para enxergar uma porta. Foi a mãe quem lhe ensinou a perceber essa diferença. E foi dessa percepção que nasceu algo que a acompanha até hoje: a incapacidade de ser indiferente. Porque, quando uma criança entende que o mundo é maior do que a própria realidade, dificilmente volta a olhar apenas para si.

Em muitas famílias, o sucesso é ensinado como um destino individual. Estudar, trabalhar, conquistar espaço, crescer profissionalmente. Tudo isso é importante. Mas, dentro de casa, Bia aprendeu outra coisa também. Aprendeu que a vida em sociedade exige responsabilidade. Que as oportunidades recebidas não devem servir apenas para construir uma trajetória pessoal, mas também para ampliar possibilidades para outras pessoas. Não como um peso. Não como uma obrigação moral. Mas como uma consequência natural de quem compreende que ninguém constrói uma história sozinho.

Talvez por isso, desde muito jovem, ela tenha se aproximado de ações sociais. Não porque enxergasse a solidariedade como um projeto paralelo à vida. Mas porque nunca conseguiu separar uma coisa da outra. Havia algo que a inquietava: a certeza de que existiam talentos sendo desperdiçados por falta de oportunidade, crianças crescendo sem acesso a experiências transformadoras e jovens que precisavam lutar muito mais do que outros apenas para começar. E, diante dessa realidade, permanecer indiferente nunca pareceu uma opção.

Ao longo dos anos, essa inquietação foi amadurecendo. Tornou-se visão de mundo. Tornou-se propósito. Tornou-se uma forma de enxergar as pessoas e os desafios sociais. Enquanto muitos se acostumam a olhar para a desigualdade como um dado estatístico ou uma paisagem permanente do país, Bia parece ter desenvolvido a capacidade de enxergar as histórias escondidas por trás dos números. Porque toda estatística tem um rosto. Toda vulnerabilidade tem um nome. Toda transformação começa em uma vida concreta.

É impossível ouvir sua trajetória sem lembrar de uma reflexão da escritora Carolina Maria de Jesus. Ao longo de sua obra, Carolina mostrou ao Brasil que a pobreza não pode ser compreendida à distância. Que existem realidades que só podem ser verdadeiramente entendidas quando deixamos de observá-las como conceitos abstratos e passamos a enxergá-las como experiências humanas. Talvez seja por isso que Bia sempre tenha demonstrado tanto interesse pelas pessoas. Porque ela compreendeu cedo que transformação social não começa em relatórios. Começa quando alguém se dispõe a enxergar o outro.

Essa visão encontraria uma de suas expressões mais fortes no Instituto de Música Jacques Klein, do qual é uma das fundadoras. Mas reduzir o instituto a uma escola de música seria insuficiente. O que acontece ali vai muito além do ensino musical. A música é a ferramenta. O objetivo é outro. É oferecer pertencimento. É fortalecer autoestima. É ampliar horizontes. É mostrar a uma criança que ela pode ocupar espaços que talvez nunca tenha imaginado ocupar.

Quando Bia fala sobre o instituto, raramente sua atenção se volta para números ou metas. O que a emociona são as histórias. A criança que chega tímida e descobre sua voz. O adolescente que encontra confiança em si mesmo. A família que passa a acreditar em novas possibilidades para o futuro dos filhos. São essas pequenas revoluções silenciosas que parecem mover seu trabalho. Porque ela sabe que as transformações mais profundas dificilmente acontecem de uma vez. Elas acontecem aos poucos, dentro das pessoas.

Há algo muito poderoso na capacidade de acreditar no potencial humano. E talvez seja isso que mais se destaca em sua trajetória. Bia não parece olhar para as pessoas a partir das suas limitações. Ela olha para aquilo que elas podem se tornar quando recebem oportunidade, apoio e confiança. É um olhar que enxerga possibilidades onde outros enxergam obstáculos. E talvez seja exatamente esse tipo de olhar que ajuda a mudar destinos.

Vivemos em um tempo que valoriza velocidade, produtividade e resultados imediatos. Mas algumas das mudanças mais importantes da sociedade não acontecem nesse ritmo. Elas exigem paciência. Exigem presença. Exigem compromisso. Exigem pessoas dispostas a investir em algo cujos frutos talvez só possam ser vistos anos depois. Educar uma criança. Apoiar um jovem. Criar oportunidades. Tudo isso exige acreditar no futuro antes que ele exista.

Ao longo da conversa, ficou evidente que a atuação de Bia no campo do impacto social não nasce de uma estratégia ou de uma tendência. Nasce de uma convicção. Da certeza de que uma sociedade melhor não será construída apenas por governos, empresas ou instituições. Ela será construída, sobretudo, por pessoas que decidem assumir responsabilidade umas pelas outras. Pessoas que entendem que prosperidade e solidariedade podem caminhar juntas. Pessoas que reconhecem que suas conquistas ganham mais significado quando ajudam a abrir caminhos para alguém.

Hoje, como conselheira de Impacto e uma das fundadoras do Instituto de Música Jacques Klein, Bia Fiúza continua movida pela mesma percepção que surgiu ainda na infância: a de que nem todos tiveram as mesmas oportunidades. Mas talvez a parte mais bonita de sua história seja justamente a forma como ela escolheu responder a essa realidade.

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Não com indiferença.
Não com resignação.
Mas com ação.

Porque algumas pessoas passam pela vida atravessando portas abertas. Outras escolhem mantê-las abertas para quem vem depois. Bia Fiúza escolheu o segundo caminho.

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